sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Solidariedade à Nova Friburgo e toda Região Serrana RJ

Fala pessoal, após alguns dias sem postar estou hoje fazendo a primeira postagem do ano. Infelizmente ela não será sobre algum tema agradável e muito menos sobre tecnologia. 

Como todos devem estar sabendo e acompanhando pelos noticiários, a situação da região serrana do Rio de Janeiro está caótica por conta das inundações. A uns anos passamos por problemas em proporções muito (muitooooo!!!) menores em Muriaé-MG e não foi algo agradável pra ninguém, imagino o que deve estar passando os moradores dessa região com esse problema gigantesco.

Hoje entrei em contato com o amigo Fábio Berbert, fundador e mantenedor do portal Viva o Linux! para saber se estava tudo bem e ele me disse que na medida do possível ele e sua família estão bem. Hoje ele publicou no VOL um texto detalhando a situação de Nova Friburgo, cidade onde ele reside. Fiquei chocado com a situação e resolvi por meio do blog republicar o texto na íntegra com intuito de levar detalhes da situação aos leitores e dessa forma mobilizar mais ajudas aos moradores das regiões afetadas por essa catástrofe: 

"Prezados membros,

Parece que eu estava prevendo algo de ruim, tanto é que passei quase todo o mês ausente do site por conta de estafa mental, eu realmente não consegui botar o dedo no teclado neste final de ano. Por conta disso me dei ao direito de me ausentar do projeto por cerca de 20 dias, foram minhas merecidas férias após 8 anos de trabalho contínuo no VOL.

Na última terça (11/01) minhas baterias deram sinal de recarga e resolvi voltar ao trabalho, mal sabia eu que essa volta seria provisória. Estou redigindo este texto sem saber se ao final ainda terei luz e/ou internet para publicá-lo. A cidade está O CAOS!

Entre a noite de terça e madrugada de quarta um dilúvio sem precedentes e incessável atingiu toda a Região Serrada do Estado do Rio de Janeiro. Em poucos minutos o rio que corta toda a Nova Friburgo transbordou e se expandiu pelas avenidas e ruas transversais da cidade. Por ser uma região montanhosa, as águas das encostas rapidamente desceram como "pororocas" morro abaixo, literalmente carregando tudo o que havia em seu caminho.

Moro no segundo andar de um prédio no centro da cidade, em menos de uma hora minha rua virou um rio, e com correnteza forte. No primeiro andar do prédio ficam o estacionamento e o (ex)apartamento de minha sogra, que foi tomado por aproximadamente 1,60m de água e lama. No estacionamento do prédio eu tinha 2 veículos, um Xsara Picaso 2003 que estava a venda e um Fiat Ideia 2007 que ainda nem comecei a pagar, ambos estão com lama até o teto (sim, a água cobriu ambos).

Duas horas de chuva foram o suficiente para estabelecer o caos na cidade, neste ponto as emissoras de TV e as rádios FM já estavam fora do ar, a luz também fora cortada. O único meio de informação era uma rádio local, a Friburgo AM, que funcionava a base de gerador e ouvíamos através de um radinho à pinhas. O apresentador recebia ligações de todos os cantos da cidade com as vítimas narrando suas desgraças ao vivo, era gente morrendo pra tudo quanto é canto.

Passei pelas piores sensações de minha vida durante a enchente. Da minha janela só dava pra ver o rio destruindo tudo o que havia pela frente. Era armário, capacete, colchonete, lixo e tudo o que havia de direito flutuando correnteza abaixo. O ápice foi quando passou o corpo de uma mulher, aparentemente morta, flutuando e sendo levada como se fosse um galho de árvore. Me senti a mais impotente das criaturas, e realmente era.

Por volta das 4h da manhã de quarta, ainda com muita chuva surrando nosso solo, relâmpagos interrompendo a escuridão total como vista de minha janela e trovoadas mais altas que as reproduzidas em volume máximo de meu home theater, eis que tudo começa a tremer, aqui pensei que minha hora havia chegado. No dia seguinte descobri que a 100 metros daqui uma barreira desabou, destruiu um clube, parte de uma escola e a casa de um vizinho. Infelizmente o vizinho estava em casa, foi soterrado, seu cachorro saiu com vida.

No dia seguinte (hoje), sem luz, telefone e água, fomos às ruas e começamos a trocar algum tipo de comunicação, tudo à moda antiga, no esquema boca-a-boca mesmo. Na verdade ainda estamos assim, no momento ainda não temos telefone, aproximadamente 40% da cidade tem luz e nem sei como é que o provedor está funcionando, pois ele também foi destruído pela água.

Só estando aqui pra ter noção do estrago que foi causado na cidade, ela literalmente ACABOU.

Meu tio conseguiu sair de sua casa segundos (SIM, SEGUNDOS) antes duma barreira destruí-la, felizmente sua mulher e filha também saíram ilesas, mas estão somente com a roupa do corpo. A maioria de seus vizinhos perderam a vida, incluindo as 3 melhores amiguinhas de minha prima.

Aqui mesmo no centro (onde moro) 2 ou 3 prédios desmoronaram, ainda não se sabe quantas foram as vítimas. Teve uma rua que foi completamente soterrada, incluindo todas as casas, previsão de mais de 100 mortos no local. A rua do meu padrinho também sumiu do mapa, felizmente ele está curtindo o aniversário de 15 anos da minha outra prima na Disney.

MUITA GENTE MORREU e ainda não foi retirada dos escombros. O número atual de 210 mortos somente na cidade de Nova Friburgo ainda é bastante impreciso, infelizmente. Na região já passam de 500. Há rumores de que existam 90 corpos de crianças e mais 6 adultos (os professores) numa colônia de férias que estava ocorrendo num bairro mais afastado da cidade. Se isto realmente for verdade, será uma das piores notícias da história do país.

O ex-prefeito da cidade também foi soterrado em seu sítio e junto dele estavam o filho e neto.

Tentei visitar um amigo meu e a única via que dá acesso à sua rua está interditada por queda de barreira, nem a pé dá pra passar. Estou MUITO preocupado com ele, que tem esposa e filha de 9 anos. Não sei a que ponto andam seus suprimentos, na verdade nem sei como estão suas condições de vida.

Existem dezenas de pontos sem acesso na cidade, as pessoas estão ilhadas, sem comida e água.

Helicópteros da Marinha não param de sobrevoar os céus, espero que estejam conseguindo socorrer a maioria, mas repito, é MUITA gente precisando de ajuda.

Dos 3 hospitais da cidade, 2 foram destruídos pela enchente. Me parece que as forças armadas já montaram 2 hospitais de campo por aqui.

O comércio, acabou... Os clubes, acabaram... As ruas, acabaram... As escolas, acabaram... Vamos recomeçar tudo do ZERO!

Enfim, tirando meu trauma emocional e pequenos prejuízos materiais, informo que estou bem e com saúde. Não sei se o serviço de internet e luz permanecerá estável e amanhã também me voluntariarei na busca por vítimas com vida nos escombros, por conta disso ficarei meio que ausente nos próximos dias. Também preciso buscar informações sobre o restante de meus familiares e amigos.

Peço um pouco mais de paciência a todos os autores de artigos e membros ávidos por informações sobre GNU/Linux, as coisas continuarão um pouco devagar por aqui nos próximos dias. Este ano me organizarei para descentralizar o "poder" aqui no site, ele não pode depender somente de uma pessoa para ter material publicado.

Não deixem de continuar acessando o site, até porque nosso fórum é bem ativo. Se possível, visitem os anunciantes do site também, atualmente minha única fonte de renda é o clique de vocês nos banners do Viva o Linux e acreditem, tem muita gente precisando de ajuda por aqui, espero ter condições de ajudar.

Sobre a ajuda, por hora meu apelo é que busquem em sua cidade algum posto de coleta de doações para as vítimas da tragédia e enviem pra cá o que puderem, na seguinte ordem de prioridade:
Água mineral (não existe mais na cidade);
Alimento não-perecível;
Roupas;
Tênis, sapatos, chinelos (favor enviarem um amarrado no outro, pois pares perdidos na pilha de calçados perdem a serventia).

Rezem pelas vítimas e peçam a Deus que pare de mandar chuva pra nossa região, pelo menos por hora!

Um abraço."

(Fábio Berbert de Paula, 2011)
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Convido a todos os leitores a aderirem esse movimento de responsabilidade social em prol das vítimas desse grande problema. Toda forma de ajuda é válida, seja procurando formas de realizar doações ou mesmo divulgando tais iniciativas.

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